O Ministério Público Eleitoral (MPE) no Ceará pediu à Justiça Eleitoral a cassação do mandato e do diploma do deputado federal Yury do Paredão (MDB-CE), reeleito em 2026. A ação, apresentada na segunda-feira 2, acusa o parlamentar de abuso de poder político e econômico e de conduta vedada na campanha.
O processo também atinge o deputado estadual Davi de Raimundão (MDB). Segundo os procuradores, os dois usaram atendimentos médicos custeados por emendas parlamentares e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como moeda de troca eleitoral na região do Cariri.
O MPE afirma ainda que Yury teve como cabo eleitoral um homem apontado como líder do Comando Vermelho no Cariri. Integrantes da facção teriam pressionado eleitores em pelo menos três bairros de Juazeiro do Norte.

Para os procuradores, o caso teve “gravidade suficiente para comprometer a normalidade e a legitimidade” da eleição. Por isso, pedem a anulação dos votos, a cassação dos diplomas e o pagamento de multa. Yury recebeu 261.291 votos, e Davi, 95.814.
No início de outubro, a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria Regional Eleitoral cumpriram mandado de busca e apreensão na casa do deputado federal, em investigação sobre supostas irregularidades eleitorais.
De acordo com a PF e o MPE, os deputados fizeram uso eleitoral da Carreta Conectados pela Cura, unidade móvel do Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, de Barbalha. A carreta ofereceu consultas gratuitas durante o período eleitoral, e o serviço era associado ao nome dos dois políticos.

Yury destinou ao hospital R$ 1,25 milhão em emendas individuais entre 2025 e julho de 2026. Segundo a ação, a carreta atendeu 1.850 eleitores e fez 3.861 procedimentos em 48 dias de operação, 42 deles em Juazeiro do Norte e 29 no período oficial de campanha.
“O alcance real é maior que o número de atendidas, pois cada atendimento repercute sobre o núcleo familiar da beneficiária, e a divulgação nas redes sociais dos candidatos e na imprensa regional multiplicou a associação entre o serviço e as candidaturas”, diz o documento. “A própria campanha reivindicou ‘mais de 8.500 atendimentos gratuitos’.”
Para levar o serviço à população, os deputados teriam usado o Instituto Dra. Yanny Brena. A ONG leva o nome da irmã de Yury, já morta, e é presidida pela mãe dele, Márcia Araújo.
A investigação concluiu que o deputado controla a entidade. O e-mail institucional cadastrado no DataSUS e na Receita Federal termina em “@yurydoparedao.com”, a mesma conta usada pela campanha e pelas empresas do parlamentar.
Embora a carreta e as consultas fossem executadas pelo hospital e pagas pelo SUS, a propaganda de Yury vinculava os exames a “parcerias com o mandato”. Os pacientes precisavam informar nome e dados na sede da ONG para retirar senhas e resultados de exames de diagnóstico de câncer.
O procedimento, dizem os procuradores, furava a fila de regulação do SUS e formou um banco de dados com milhares de eleitoras. Uma moradora relatou ao MPE que os responsáveis pelo atendimento atribuíam o serviço diretamente aos dois deputados. Ela entendeu a iniciativa como uma espécie de “compra de votos”.
PF tem indícios de atuação do CV na campanha do deputado
Relatórios sigilosos da PF apontam que Otávio Batista de Souza Silva atuou na linha de frente da campanha de Yury. Ele é irmão de Tarciano Silva, o Nego Tarso, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho no Cariri e preso em maio de 2026.
Popular passa diante de muro pichado com as iniciais do Comando Vermelho (CV) | Foto: Alaor Filho/Estadão Conteúdo
Com a prisão do irmão, Otávio teria assumido o comando da facção na região. Ao mesmo tempo, visitava eleitores de porta em porta e recrutava cabos eleitorais.
Entre os recrutados estavam integrantes da facção com histórico criminal, um deles em liberdade condicional por tráfico de drogas. Moradores relataram que esses cabos eleitorais pressionavam as comunidades a votar em Yury sob o risco de “sofrer retaliações por parte da facção”.
Em nota, Yury afirmou que mantém uma relação de parceria com o Instituto Dra. Yanny Brena e que apoiar entidades voltadas ao atendimento da população faz parte de sua atuação pública. O deputado não confirmou nem negou o uso eleitoral do serviço.
Davi declarou que ainda não foi notificado e, por isso, não tem conhecimento oficial dos fatos. “Reitero minha confiança na Justiça Eleitoral do Estado do Ceará e no devido processo legal”, disse.